Terça-feira, Setembro 19, 2006
Diário do Nordeste
 Esse piso tem 469 anos. É original da Capela da Santa Sé, em Olinda (PE). Desde sua construção, ele já suportou milhares, talvez milhões de pessoas, entre fiéis e turistas. Eu e minha irmã somos duas dessas turistas. Conhecemos um pedaço do nordeste há alguns dias. Maceió, Maragogi e litoral norte e sul em Alagoas, e, em Pernambuco, fomos a Olinda, Recife e Porto de Galinhas numa rápida visita em um dia. Há mais coisas que atravessam séculos no nordeste, além desse piso. Felizmente muito da beleza natural. Infelizmente a ignorância e a miséria do povo e a ganância e desonestidade de poucos que têm muito – ou quase tudo. Na terra de água de cores inacreditáveis, lindas praias, onde coqueiros parecem emoldurar uma pintura a cada ângulo diferente para onde se olha, a beleza natural contrasta com uma desigualdade que também salta aos olhos. Uma das praias mais bonitas que conheci é o Gunga, no litoral sul de Maceió. À direita, ondas branquinhas quebravam o silêncio. Alguns passos para a esquerda, atravessando um pedacinho de areia, uma lagoa com cara de piscina. A bela paisagem é uma recompensa aos olhos de quem entra numa das propriedades de um dos coronéis mais ricos de Alagoas. Só veículos credenciados adentram o território. Na entrada, casas no estilo “barroco” (de barro) e “gótico” (de palha, que permite gotas d’água casa adentro em dias de chuva) e sem saneamento, com “banheiros” improvisados entre rodas feitas de bambu que apenas escondem um buraco no chão, lembram que a mão-de-obra barata ainda é atrativo para os grandes negócios no nordeste. Não fiz fotos das casas onde moram os trabalhadores do tal coronel. Passamos de ônibus e era um pouco longe da praia. Confesso que quando cheguei naquele paraíso, esqueci do inferno onde famílias inteiras trabalham com coco, garantindo que o setor seja a segunda economia do estado e seu patrão, o quarto homem mais rico.
“Bateu na lata, o povo tá dançando”, diz pra gente o taxista que nos pegou no aeroporto. O que mais eu temia na viagem à terra do forró era a trilha sonora. Mas Clara, Cau e Glauber salvaram nossa pele. Entrar no quarto deles era como atravessar um portal para os anos 70. Led e Janis Joplin só saíram do som para dar lugar a DJ Dolores – música eletrônica com ritmos do nordeste, novidade agradável para mim. Ainda nos levaram num bar onde comemos macaxeira e ouvimos jazz. O apartamento deles também poderia ser cenário das Brumas de Avalon. Ô... E ainda tinha cinema no teto! Não era viagem, não. Não fosse Louis Daguerre há 151 anos, ficariam ricos os baianos. (Sim, os vizinhos eram da terra do axé. Às vezes, descobrimos que temos pré-conceitos estúpidos...). Contudo, não fosse Daguerre, talvez eu não pudesse registrar em mais de 300 clicks nossas inesquecíveis férias. Valeu pela companhia, Lari.

 

 

escrito por Marcela às 00:19
1 Comentários:
-
às 20:07,
Luis Filipe disse...
-
o que dizer?
<< Home
|
|
|