Quinta-feira, Novembro 24, 2005
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O que vocês querem aqui? Querem saber como eu tô? Me liguem, atravessem pro outro lado do 4° andar, virem a cadeira, me mandem uma mensagem. Não venham atrás de informação, diversão, filosofia, teorias (furadas, quem sabe). Tem aos montes por aí. Google. Banca de revista. Livraria. Teria que ler muito mais, ler todos os livros empilhados pra depois (e entendê-los), ouvir todas as músicas armazenadas em 13,6GB dos 120 que me deram pelo preço 80. Ou precisaria morar na Europa por um tempo. Falar de pós-modernidade? Deixo pro Baudrillard, ele faz isso zilhões de vezes melhor. Discursar sobre amor ou paixão? Deixo pro bar, onde a gente pode falar de impressões com a maior autoridade e, se for o caso, dar o crédito pra cerveja. O que vocês querem que eu diga? Que em uma semana vivi o lado bom e ruim de ser jornalista? Isso eu posso contar. Que matei aula pra ir atrás de dois menores presos e emplacar uma matéria na contracapa (o foco não era exatamente esse e o destaque fica por conta da foto, mas minha versão é sempre mais emocionante!) Correria. Adrenalina. Deadline. Sofri na mão da edição. Depois sofri na mão das fontes. Interesses. E na(s) mão(s) do(s) editor(es) de novo. E de novo. Por um segundo quis vender sanduíche na praia e arrancar aplauso dos engravatados. Descobri (ou finalmente admiti pra mim mesma) que sou megalomaníaca. Não escrevo uma nota no jornal sem sonhar com um (im)posssível prêmio Esso. Frustração? Não. Tenho os pés no chão. (Mas a cabeça eu gosto que “avoe”.) Posso falar mais. Descobri porque gosto tanto de assistir ao Linha Direta e ler notícias escabrosas. É duro admitir que Freud explica, mas nisso ele tem razão. Quero ver o bizarro nos outros, pra provar pra mim mesma o quanto sou normal. Como não me dei conta disso antes? Eu, tão inteligente, tão esclarecida, como diria minha vó. Mais? Adorei o Jardineiro Fiel. Me lembrou da minha velha ilusão de que eu poderia mudar o mundo, que eu poderia fazer qualquer coisa que eu quisesse. Megalomania. Que eu viveria muito bem sendo voluntária na África. Lembrei que eu já ganhei o dia com um sorriso de uma criança pobre. Generosidade. Viveria bem África. Desde que construísse uma casa forte, com ar condicionado, ADSL, aparelho de som e grades. Empatia. Senti pena daquelas pessoas. Ódio daquelas outras. Odeio injustiça. Descobri que posso cometê-la facilmente. Que eu tenho um poder nas mãos. Um poder que me é concedido e mais facilmente pode me ser tirado. Mas por alguns momentos eu o tenho. Velha ilusão. Hoje tenho medo desse mundo doente. Desse mundo que eu não conheço, porque saio da minha casa segura, na minha rua segura e só corro perigo no caminho até chegar ao prédio seguro onde trabalho. E que perigo eu corro? Nada de laboratórios cruéis, fome, guerra civil declarada. É o desemprego e a fome do outro. Do negro, do pobre, do mal vestido, de quem me pede as horas. Do filha da puta que roubou minha bolsa. Perigo do medo que eu tenho. Velha ilusão. Um dia eu acreditei em Deus. Não no Deus do Bento 16. Institucionalizado, político. Acreditei numa Força. No amor, talvez. Numa energia boa, em pessoas boas. Precisava voltar a acreditar. Precisava de um suporte irracional que me explicasse ou confortasse da dor de alguns absurdos que eu vejo. Alguém pra quem eu pudesse agradecer à noite, de mãos juntas e olhos fechados. Alguém pra quem eu pudesse pedir que meus sonhos se realizassem. Porque a fé é irracional. E o homem, não. EU não sou. Sou dona de mim, a quem devo minhas próprias conquistas. E desde que eu descobri, não consigo mais acreditar. Ainda acredito nos meus amigos. Velhos e novos amigos. E é só em vocês que tenho fé.
escrito por Marcela às 00:42
13 Comentários:
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às 09:03,
Luís Bulcão de Lima Pinheiro disse...
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: D
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às 09:11,
Luis Filipe disse...
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:(
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às 17:28,
Luís Bulcão de Lima Pinheiro disse...
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Quis dizer, feliz por ver a garota indo a luta desse jeito e colocando as coisas em duvida e nao deixando de buscar suas proprias respostas... Nao feliz pela tristeza, mas absurdamente (positivamente) chocado pelo inconformismo. Acho que soh vivendo desse jeito eh que se aprende, dando a cara a bater. Agora eh pra sacudir a poeira e voltar pro combate sabendo que nao eh imbativel. Por isso o : D.
Bah, e adorei esse desabafo, me identifiquei pracaralho! (mas nao gosto de ver Linha Direta)
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às 21:26,
disse...
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mas eu nao tô triste! nao tô mesmo. :] pareceu? droga de comunicação virtual... mas é isso aí: desabafo, inconformismo, dúvidas, luta e linha direta :P
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às 12:47,
Priscila Carvalho disse...
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bah, me identifiquei um monte também. que bom poder conviver com pessoas com garra, visão e muita força de vontade. tenho me sentindo assim, mas parece que sou só uma na multidão. muito obrigada.
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às 12:58,
Daniela disse...
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E certamente se desenvolve uma baita jornalista!
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às 12:58,
Daniela disse...
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E certamente se desenvolve uma baita jornalista!
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às 12:53,
disse...
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Força amiga! SEMPRE! Pq a gente não vai chegar lá...a gente já ESTÁ lá. Beijos com saudades e lagriminhas nos olhos (de orgulho da prima querida!)
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às 13:26,
Bernardo disse...
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Muito, muito bom! Eu sinto falta de acreditar também. Será que dá pra se sentir confortável, confortado, de novo?
Hoje de manhã ouvi o Moreno na Ipanema!
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às 06:49,
moreno disse...
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E q tal?
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às 16:40,
marcela teixeira disse...
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adorei, andava precisando colocar algo desse gênero pra fora e meu blog não funciona. merda... só tô bem mais longe de uma contracapa do que tu... bjs saudades
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às 19:38,
Gisele disse...
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Ui, que desabafo! Isso aí... diz o que tu tem a dizer, que a gente gosta de ouvir (ler, no caso). Não importa o quê, filosofias, futilidades ou simplesmente um "causo". Teu texto é sempre muito bom! Bjo
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às 16:58,
Bernardo disse...
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Ae moreno! curti! Claro que eu podia aproveitar melhor se eu tivesse carro. Hahaha!
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